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19/11/2007
“É preciso esquecer o papel, a tinta, a impressão”

Uma das pioneiras do país a publicar material sobre Jornalismo Digital, a professora Pollyana Ferrari faz um diagnóstico do ensino das práticas online nas universidades brasileiras. Após quatro anos do lançamento de seu livro, Jornalismo Digital, ela aponta o que mudou e os caminhos que os jornalistas de web têm pela frente.

SubLide.com - O seu livro Jornalismo digital foi um dos pioneiros a refletir sobre o Jornalismo e as novas tecnologias no Brasil. Como surgiu a idéia? A pouca bibliografia foi o estímulo para escrevê-lo? Se você fosse escrevê-lo hoje, ele seria diferente?

Pollyana Ferrari - Há 20 anos atuo no mercado editorial de informática, tendo dedicado os últimos 12 anos à Internet, acumulando os cargos de diretora de conteúdo da MANDIC, diretora de portal do iG e diretora da Editora Globo Online. Há sete anos ministro aulas nos cursos de Jornalismo da PUC/SP. Percebi na prática, no meu cotidiano que eu mesma não tinha onde pesquisar para o meu mestrado que comecei em 1999 na USP. Daí surgiu o convite da Editora Contexto para escrever o livro.

SubLide.com - Pode parecer que não, mas o Jornalismo Digital é ainda muito novo. Está também em constante modificação. Isso não prejudica a formulação de didáticas e a estruturação dos cursos sobre o assunto?  Em que pé estão as universidades brasileiras?

Pollyana Ferrari - Acho que evoluímos bastante neste quesito. Quase todos os cursos de Jornalismo já incorporaram, por exemplo, Jornalismo Online na grade curricular. Em cinco anos tivemos grandes mudanças nas ementas dos cursos.

SubLide.com - Para muitos professores a Internet é apenas a convergência de jornal, tevê e rádio. Para eles, ensinar Jornalismo Digital é ensinar um pouco de tudo. Mas se é um meio novo, quais são as especificidades que os estudantes precisam perceber, aprender?

Pollyana Ferrari - Primeiramente, você tem uma mudança de paradigma, o jornalista vai precisar trabalhar com recursos multimídia (áudio, vídeo, texto, imagens, animações) para construção de uma narrativa hipermidiática. Pensar digitalmente significa esquecer o pensamento analógico. É preciso esquecer o papel, a tinta, a impressão. Olhar o espaço virtual como possibilidade de interação entre o jornalista e o usuário. Um exemplo de caso de sucesso que utilizo em sala de aula. Sendo um dos primeiros jornais online a funcionar 24/7 (vinte e quatro horas por dia/sete dias por semana) o The Guardian mostra essas 24 horas de várias maneiras. Uma forma sempre fascinante é ver, em rápida sucessão, na seção 24 hours, as melhores fotos que mostram o dia que se vai encerrando. Em cursos de fotojornalismo de nossas faculdades de Comunicação, uma passada pelo 24 horas deveria ser tarefa diária obrigatória para todos os estudantes.

SubLide.com - Muitos cursos de Jornalismo Digital mantêm blogues, uma forma de escrever para e sobre o meio online.  Na sua visão, uma ferramenta interessante? Como explorar, nesse caso, as potencialidades?

Pollyana Ferrari - Acho a ferramenta essencial. Eu por exemplo, estou com cinco blogues no ar no curso de Jornalismo da PUC. Esta semana inclusive homenageio todos no meu blogue. Lá você encontrará um pouco sobre cada um e a URL deles.

SubLide.com - Muitas das coisas que se diz, escreve, fala sobre jornalismo digital tem base em experiências em outros países. O ensino do jornalismo digital não pode, portanto, estar um pouco distante da realidade concreta do Brasil?

Pollyana Ferrari - Não acho que isso ocorra em 100% dos casos. Na PUC/SP venho fazendo um bom trabalho, mexemos na grade, tornando Jornalismo Online uma disciplina anual, com seis meses de teoria sobre Cibercultura e a mudança social imposta pela sociedade informacional e seis meses para a prática do Jornalismo Online. Gosto muito do que vem sendo feito pelo professor Marcos Palácios e seu grupo do GJOL. Eles montaram um blogue coletivo sobre Jornalismo, Internet e Novas Tecnologias de Comunicação mantido pelos integrantes do Grupo de Pesquisa em Jornalismo On-line da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. O professor PC Guimarães, por exemplo, também usa um blogue didático para ensinar Jornalismo Digital, mais um exemplo nacional.

SubLide.com - Os estudantes saem preparados para trabalhar com o online? Quais são os melhores exemplos de ensino prático e teórico do Jornalismo Digital no Brasil?

Pollyana Ferrari - Acho que a Federal da Bahia pode ser um exemplo a ser seguido.  Ainda falta muito para prepará-los, pois se pensarmos que o digital está perpassando tudo, teremos que mexer muitas vezes nas grades dos cursos. Também acho que falta investimento acadêmico em na melhoria dos laboratórios, proporcionando aos alunos hardwares e softwares para o mundo Web. Vejo dificuldade ainda nesta mudança conceitual, pois o Jornalismo Online muda a relação emissor - receptor que aprendemos no Jornalismo tradicional e com a mudança, todo o modo de se fazer jornalismo.

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“É preciso esquecer o papel, a tinta, a impressão”
O ensino de Jornalismo Digital no Brasil segundo a professora Pollyana Ferrari, uma das primeiras a publicar sobre o tema.
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